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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Vamos à luta

Houve uma escola em que trabalhei, em que se costumava avaliar os comportamentos das crianças classificando-os como escolhas. Se o resultado de uma delas fosse percebido como "bom" a criança ganhava um reforço positivo (como um elogio ou um sorriso da professora), mas se este fosse visto como "ruim" a mesma recebia um reforço negativo (o que poderia variar de formas verdadeiramente sórdidas). 

Não, eu não estou aqui para falar sobre educação (apenas). Tampouco acredito na abordagem de Skinner como uma proposta interessante para se lidar com a chamada "indisciplina" nas salas de aula. "Skinner privilegia conceitos como controle e previsibilidade e dá pouco valor a conceitos como liberdade e realização pessoal. Skinner defende um modelo de educação que parte do meio para o indivíduo, enquanto Rogers - com quem as ideias de Skinner foram confrontadas - defende que a educação deve ser feita do indivíduo para o meio" (excerto da Wikipedia).

Aplicar essa teoria comportamental ao julgamento de nossas escolhas na vida a partir do sabor dos resultados pode vir a ser uma estratégia útil na promoção do auto crescimento. E o fato de o ano novo ter chegado nos lembra de que não temos tempo a perder, não é mesmo?

"Eu acredito é na rapaziada que segue em frente e segura o rojão. Eu ponho fé é na fé da moçada que não foge da fera e enfrenta o leão. Eu vou à luta com essa juventude que não corre da raia a troco de nada. Eu vou no bloco dessa mocidade que não tá na saudade e constrói a manhã desejada", cantou Gonzaguinha pela primeira vez em 1980. Sou dessas.

Por isso, não quero saber desse papo de "Ano novo, vida nova". Quero mesmo é ver as pessoas saírem do discurso e partirem pra ação. Fernando Pessoa já atestou: "Querer não é poder... quem quer nunca há de poder, porque se perde em querer". Concordo com ele e com aqueles que têm fé, mas não se esquecem de trancar o carro. Do que estou eu falando, afinal?

Digo da necessidade de se assumir as próprias derrotas e (porque não?), os sucessos também. Não, você não precisa sair por aí se expondo ao ridículo tanto assim. Mas um momento como este (de virada de ano) poderá ser transformador apenas através dessa revisão interna em que se tem a liberdade e a honestidade de julgar as próprias escolhas como boas ou ruins e - não se esquecer dessa parte - elaborar um comportamento novo para substituir este que deverá cair em desuso. Sem isso, não há simpatia que chegue.

Há quem deixe de fazer o que quer por medo de parecer ridículo. Mas, pare e pense, talvez seja preciso que essas pessoas revejam seus conceitos sobre o que verdadeiramente importa para elas. O que mais impede alguém de deixar ir o velho (o que entrou em desuso, e por isso, não serve mais) é o medo do novo e a clássica dúvida sobre a capacidade de se adaptar às novas condições. Bem, para se saber disso, você já sabe como se faz. Aquele que não se expõe ao erro, não colhe o fruto do aprendizado. Faço, então, uma advertência: não se economize por medo do que os outros possam vir a julgar (como certo ou errado) sobre a sua experiência. Você não veio ao mundo pra satisfazer ninguém. Você nasceu para ser feliz.

Sabemos que a vida não é um "mar de rosas". O contentamento é uma ciência misteriosa que pode apenas advir da vivência individual e da observação dos resultados das escolhas cotidianas em si mesmo. Esta forma de encarar os acontecimentos poderá servir de base para a construção de algo ainda mais sólido: o autoconhecimento. Pois bem: que tal assumir agora a responsabilidade por sua felicidade e, se há algo nos outros que ainda faz com que você sustente qualquer desculpa que seja para ser infeliz, libere-se. Você é o núcleo da sua vida e ninguém poderá lhe fazer feliz se você estiver atado a uma (falsa) crença de que a felicidade não foi com a sua cara tanto quanto a parceira melancolia. 

Não espere mais. Deixe ir o que lhe trouxe dor (sem deixar de aprender, antes, todas as lições possíveis que a dor encerra) e abra-se, pois a vida está desabrochando para você um novo dia. Para usufruí-lo basta que você reconheça isso e receba as infinitas dádivas escondidas neste novo começo. Ajuste o olhar, perdoe-se e vá em frente. A vida é sua. O palco é seu.

"Agora dê a você mesmo um sorriso. Qual é o valor de um diamante se você não sorri?" Rumi


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Não há lugar como a casa da gente


Quem poderá discordar de Dorothy, a menina interpretada pela diva Judy Garland no filme “The Wonderful Wizard of Oz” ou simplesmente “Mágico de Oz”, que foi carregada junto com o seu cachorro Totó por um ciclone na fazenda dos tios em Kansas e acabou indo parar em uma terra fantástica, encontrando amigos inesquecíveis e passando por aventuras impensáveis? Eu amo esse filme. Ele é bom para nos ajudar a ter a força de acreditar em “Somewhere over the rainbow” – título da música tema deste clássico do cinema, lançado no ano de 1900.


A metáfora do lar é antiga. O que é o lar? Lar é aquele lugar em que se está bem, à vontade, um lugar em que se é amado, em que se pode ser você mesmo. Lar, nesse sentido, não é necessariamente um lugar físico, pode ser e é, sobretudo, uma terra como a de Oz: terra imaginária. Lugar afetivo que começa, porém, em como tratamos a nós mesmos. O seu eu é o seu lar e, por isso, é preciso voltar a ele. Recuperar a autoconfiança perdida no caminho é essencial, não importa o motivo de você tê-la perdido, é preciso que você se recupere e reaprenda os passos de se amar.


"Não ajunteis para vós tesouros na terra; onde a traça e a ferrugem os consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração." (Mateus 6:19-21) Esta passagem bíblica é uma das mais significativas para mim e ela diz desse lugar afetivo que é o ‘lar’. Um espaço que antes de ser objetivo, é subjetivo. Mais que um lugar externo, é um sentir interno. Então, se você se desviou do caminho e se afastou do lar de seu amor próprio, é hora de voltar para casa.http://tavernafilosofica.wordpress.com/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif

A psicóloga americana e jungiana Clarissa Pinkola Estées aborda em um dos capítulos de seu mais famoso livro “Mulheres que correm com os lobos” o tema do retorno ao lar.  “A coisa mais importante que eu posso lhe dizer sobre esse “timing” do ciclo de volta ao lar é: quando chegar a hora, é porque a hora chegou. Mesmo que você não esteja pronta, mesmo que as coisas estejam por fazer, mesmo que hoje seja o dia da chegada do seu navio. Quando chegar a hora, é porque a hora chegou. Não há algo como a hora ideal; não existe a hora perfeita, para ninguém.” Então, “When it’s time, it’s time”. Temos que ir, pois é chegada a hora. E se é chegada a hora, sabemos que precisamos realmente deixar tudo como está - abandonar as coisas como costumavam ser – pegar o primeiro retorno que encontrarmos pela estrada e seguir de volta ao lar.


No delicioso nonsense “Alice no país das maravilhas”- romance de Lewis Carroll que virou clássico do Walt Disney e apareceu em divertidíssimo filme de Tim Burton, estrelado por astros como Johnny Depp, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter e a australiana Mia Wasikowska para quem, aliás, a personagem “Alice Kingsleigh” caiu feito uma luva - os diálogos são cheios de trocadilhos e jogos de palavras e logo no início do filme há uma cena em que a pequena Alice tem um pesadelo e está na cama conversando com seu pai quando diz: “Papai, você acha que eu estou maluca?”, ao que o pai responde, sério: “Receio que sim. Você está birutinha!”, e diante do olhar arregalado da filha ele continua: “Mas posso lhe contar um segredo? As pessoas malucas são as melhores!”. Mais tarde, Alice se apropria do conselho do pai e acolhe seu amigo, o “Chapeleiro Maluco”, quando em um momento de angústia ele se questiona a respeito da própria sanidade mental. Talvez por ser maluco, este filme e este livro conquistaram pra sempre esta minha alma que, como a de Alice, acredita no impossível: “As vezes eu acredito em seis coisas impossíveis antes do café da manhã”.


"Alice no país das maravilhas" teria, então, relação com a ideia de retorno ao lar? Há várias passagens no filme e no livro que comprovam que sim. No filme, por exemplo, o "País das Maravilhas" não tem o nome de "Wonderland" e sim "Underland". Portanto, não seria um "País das Maravilhas" e sim, o inferno: o mundo "underground", ou para alguns, simplesmente, a própria natureza obscura interior, o núcleo do inconsciente. Alice está envolvida em uma aventura de volta para casa. Ela está buscando por "si mesma", pelo que os junguianos chamam "self": sua recém perdida "muchness", como é dita pelo chapeleiro. "Muchness" é  "abundância", "totalidade". Ela descobre que a "Rainha Vermelha" fez com que ela perdesse a sua abundância e este é o "turning point" do filme. Até então não estava disposta a lutar com a espada e matar, pois não sabia porque lutava, não queria matar nada, ela se pensava boazinha. E quando percebe que perdera algo essencial, ela descobre que matar aquilo que lhe impede de expressar sua totalidade é como podar uma planta: algo vital. Com a espada em mãos, ela segue em frente, mata "Jabberwocky", o dragão interior  - algo que pensava ser impossível - e com a autoconfiança recuperada pode, enfim, voltar para casa.


"Quem diz o que é "apropriado"? E se fosse convencionado que é "apropriado" usar um bacalhau na sua cabeça? Você usaria?" Alice Kingsleigh

sábado, 29 de outubro de 2011

Os quatro rabinos

Uma noite quatro rabinos receberam a visita de um anjo que os acordou e os levou para a Sétima Abóbada do Sétimo Céu. Ali eles contemplaram a sagrada Roda de Ezequiel. Em algum ponto da descida do Pardes, Paraíso, para a Terra, um rabino, depois de ver tanto esplendor, enlouqueceu e passou a perambular espumando de raiva até o final dos seus dias. O segundo rabino teve uma atitude extremamente cínica. "Ah, eu só sonhei com a Roda de Ezequiel, só isso. Nada aconteceu de verdade." O terceiro rabino falava incessantemente no que havia visto, demostrando sua total obsessão. Ele pregava e não parava de falar do projeto da Roda e no que tudo aquilo significava... e dessa forma ele se perdeu e traiu sua fé. O quarto rabino, que era poeta, pegou um papel e uma flauta, sentou-se junto à janela e começou a compor uma canção atrás da outra elogiando a pompa do anoitecer, sua filha no berço e todas as estrelas do céu. E daí em diante ele passou a viver melhor.


(Do livro: Mulheres que correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estees)



Passou a diligência pela estrada, e foi-se; 
                                                  E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia. 
                                                 Assim é a ação humana pelo mundo fora. 
                                                 Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos; 
                                                 E o sol é sempre pontual todos os dias.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Livro: a troca

Pra mim, livro é vida; desde que eu era muito pequena os livros me deram casa e comida.
Foi assim: eu brincava de construtora, livro era tijolo; em pé, fazia parede; deitado, fazia degrau de escada; inclinado encostava num outro e fazia telhado. E quando a casinha ficava pronto eu me espremia lá dentro pra brincar de morar em livro. De casa em casa eu fui descobrindo o mundo (de tanto olhar pras paredes.) Primeiro, olhando desenhos; depois, decifrando palavras. Fui crescendo; e derrubei telhados com a cabeça. Mas fui pegando intimidade com as palavras. E quanto mais íntimas a gente ficava, menos eu ia me lembrando de consertar o telhado ou de construir novas casas. Só por causa de uma razão: o livro agora alimentava a minha imaginação. Todo dia minha imaginação comia, comia e comia; e de barriga assim toda cheia, me levava pra morar no mundo inteiro: iglu, cabana, palácio, arranha-céu, era só escolher e pronto, o livro me dava. Foi assim que, devagarinho, me habituei com essa troca tão gostosa que - no meu jeito de ver as coisas - é a troca da própria vida; quanto mais eu buscava no livro, mais ele me dava. Mas como a gente tem mania de sempre querer mais, eu cismei um dia de alargar a troca, comecei a fabricar tijolo pra - em algum lugar - uma criança juntar com outros, e levantar a casa onde ela vai morar.

Lygia Bojunga Nunes

domingo, 17 de julho de 2011

Soneto Antigo



Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.
(Cecília Meireles)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Um Sonho

Em visões da noite escura
Tenho sonhado da alegria afastado --
Mas um sonho acordado de vida e luz
Tem me deixado de coração partido.

Ah! O que não é um sonhar acordado
Para ele cujos olhos estão presos
Em coisas ao redor dele com um raio
Retornado para o passado?

Aquele sagrado sonho--aquele sagrado sonho,
Enquanto o mundo inteiro dele ria,
Me alegrou como um adorável raio de luz
Para um espírito solitário era um guia.

O que então se aquela luz, através de tempestade e treva,
Tremulasse tanto à distância--
O que poderia ser mais puramente brilhante
Que a Verdade a brilhar de dia?

(Edgar Allan Poe)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Apostila


Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linhas...
O trabalho honesto e superior!
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos -
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que não se vê...)
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
e os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil...

Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos -
Imagens da vida, imagens das vidas,
imagens da Vida.
Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um ato indefinido nem factício...
Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalíssimo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?

(Passageira que viajas tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegamos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto à vida?

Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!
Deixem-me ser uma folha de árvore, tilitada por brisas,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O regato casual das chuvas que vão acabando,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vem outras,
O pião do garoto, que vai parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da terra,
E estremece, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.
(Fernando Pessoa)